Silêncio. O sol invade sorrateiro as frestas da janela. Aquele cheirinho de manhã. Café, creme&craque e manteiga. A penumbra e a preguiça. Ah, a preguiça. De repente, como que de repente, realmente sem esperar a porta se abre num rompante de fúria. De fora se ouve uma voz estridente:
“ – Que horas o senhor pretende acordar?”
A única forma de se manter alheio à pergunta desconcertante é usando a arma que se tem à mão: o lençol. Cobrindo o rosto, a tentativa inútil de sufocar o grito cai por terra quando uma mão desfaz a cobertura salvadora e declara com dedo em riste apontando para o rosto ainda adormecido:
“ – O senhor é um fanfarrão! Vamos, o senhor tem 10 segundos para estar de pé! (essa última frase gritada bem próxima ao tímpano de forma bem articulada).” V-A-M-O-S, O S-E-N-H-O-R T-E-M D-E-Z S-E-G-U-N-D-O-S...
O sono e o grito entorpecem o corpo ainda inerte. A confusão entre sonho e realidade é absurda. O pesadelo é real e o sonho se desfigura com o maldito sol que entra safado pelos buraquinhos na janela. Enfim, de pé. A vistoria é feita. Cabelo, barba, olhos, dentes e roupas. Depois de passar a tropa (eu!) em revista, é cronometrado o café. Aquele insosso creme&craque com café preto. A cara de desprezo pelo manjar. A vontade contida de correr para os braços de tão jovem cama. Aquele cheiro desprezível de manhã, aquele nojo de café e creme&craque.
“ – Tá com nojinho, Marcus? Tá com nojinho, Marcus? Apois tu vai comer é nada! Adiante que o carro de 6:15 (SEIS e QUINZE!) já passou!”
Aos chutes e berros sou atirado na rua com um dedo apontando a esquina. É o carro de 6:30 (SEIS E MEIA DA MANHÃ!!!) que passa e eu tenho que correr. Antes de chegar à condução ainda permito uma última ofensa que insisti em chegar aos meus ouvidos, mesmo com a distância:
“ – Mas é um vagabundo mesmo!”
...se pensarmos que a vida do autor depende de inúmeros processos involuntários que se interligam em cadeias infinitas, podemos ousadamente dizer, ao ver o livro nas mãos dos leitores, que todo o universo conspirou para que ele existisse...
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Um comentário:
nao exita se precisar de qq coisa! às vezes ficamos surdos e cegos pra certas situações, mas nunca inoperantes... principalmente com amigos!
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