Fico me perguntando se um passarinho (pequenininho) – quando se atira do tranqüilo ninho no galho mais alto buscando voar – é idiota ou ousado. O passarinho é criado para sempre esperar o momento certo. Esse momento é definido única e exclusivamente pelos seus pais – sábios – que irão lhe dizer quando alçar o seu primeiro vôo.
Assim era com Tico. Ele era o mais novo passarinho daquela ninhada de pequenos joãos-de-barro. Desde pequenininho ele era alimentado e esquentado pelos seus pais. Tico via os passarinhos voando e sonhava:
“ – Um dia irei voar com minhas próprias asas, eles vão ver.
Tico cresceu. E como todo joão-de-barro que se preze oficiou-se como pedreiro. Aprendeu com gosto o trabalho do pai. Construiu sua casa e a de vários pássaros da região. Só que Tico era diferente. Na verdade, Tico era estranho. Ele se preocupava demais com os detalhes e vivia “inventando moda”. Os pica-paus gracejavam:
“ – Lá vai o Tico. Uma flor de passarinho! E caiam na gargalhada.”
O pai de Tico ficou preocupado. Percebia que, apesar de ter aprendido o ofício de pedreiro (inerente à sua natureza) seu filho mostrava outras habilidades. O problema é que a vizinhança tava falando e a mulher – mãe de Tico – a todo o momento falava:
“ – Esse menino não tem jeito. Só quer fazer o que dá na telha. É melhor pensar bem antes que ele faça alguma besteira com seu futuro (o dele)!”
Sendo assim, num dia aparentemente como qualquer outro, Tico apareceu em casa e disse de forma prática e sincera, sem titubear e com voz de pássaro:
“ – Cansei desse emprego, quero coisa nova!”
O pai de Tico, tadinho, quase morre. As penas afrouxaram e ele bateu com o bico na mesa. A mãe tratou logo de atirar meio quilo de “porquês” aquilo era uma birutice, um despaltério, uma loucura. Provou por a + b que ele tinha mais é que se aprofundar nos exames de pedreiro, que o título de pedreiro era a coisa mais importante e blá blá blá.
Tico ouviu.
Depois de muito falatório o pequeno passarinho olhou os pais bem no fundo dos olhos. Deu meia volta e vislumbrou a porta da toca. Deu alguns passos e viu o abismo entre as folhas. Ele nunca havia pulado. Sempre andou pelos galhos. Olhou pra baixo, depois olhou pra cima – pras nuvens. Deu um suspiro e pulou. Ele era livre...
a filipe
...se pensarmos que a vida do autor depende de inúmeros processos involuntários que se interligam em cadeias infinitas, podemos ousadamente dizer, ao ver o livro nas mãos dos leitores, que todo o universo conspirou para que ele existisse...
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2 comentários:
vc é sempre assim?
Assim como - vc pergunta.
Assim, perfeito.
Sou tua fã!
Idiota de certo o Tico é... (ao menos pra mim...)
O verbo é “idiotar”
O verbo “idiotar” sempre foi pra mim sinônimo de coisa boa.
Embora considerem o idiota um ser estúpido, desprovido de inteligência, o idiota pra mim é uma pessoa sensível, simples, inofensiva, de poucos rodeios, talvez o seu jeito um tanto quanto detraído contribua para que poucos o compreenda e acabem concordando com a maioria...
“Idiotar” é pegar um papel, não importa o tamanho ou a qualidade, pode até ser o guardanapo do barzinho, ou a parte interna da carteira de cigarro (deixada de lado) e fazer uma declaração, seja a um amigo, a um amante, a um irmão ou irmã, ao pai ou a mãe, seja para um simples desconhecido que você foi com a cara não sabe bem porque...
“Idiotar” é fazer um desenho, com estrelinhas, corações, sol, lua, barquinhos, todas essas frescurinhas...
“Idiotar”é correr pra pegar os passarinhos que ficam ali na beira do mar... só pra ver eles voando e você rir...
“Idiotar” é brincar de vôlei no meio do supermercado...
“Idiotar” é subir em algum lugar, pode ser no muro, numa árvore (numa estrutura metálica qualquer, esquecida no meio da praia...) e ver as coisas lá de cima, sentir o vento... ele tem sempre algo a nos dizer...
“Idiotar” é dançar de noite na praia todos os ritmos sem ritmo e cantar mesmo desafinado...
“Idiotar” é pintar o sete, o oito, o nove, o dez... é fazer arte...
“Idiotar” é ir atrás dos seus sonhos mesmo que para os outros pareçam loucura...
“Idiotar” é correr o risco de ser chamado de ridículo, de patético, de “idiota”...
O idiota, ao contrário do que pensam, não faz essas coisas com intuito de chamar atenção e se aparecer, porque ai bastaria colocar uma melancia pendurada no pescoço e correr pelado...
Para “idiotar” não precisa dia, hora, local ou razão... é algo que você simplesmente sente, vai lá e faz...
;)
:)
:***
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