Geralmente quando escrevo deixo o título por último. Faço assim porque só sei que nome dar ao que escrevo depois que leio. Preciso primeiro criar o filho pra depois batiza-lo. Não há como vir com o nome pré-pronto, não dá pra conferir no mapa astral que nome ficaria melhor ou qual insígnia soaria melhor nos olhos de quem lê. Esse é diferente. Comecei pelo título porque é a partir destas três expressões que desenrolarei o que se passa nos últimos dias. Dias de chuva, hospitais e dores – muitas dores.
E A DOR NÃO PASSA
Tudo começa quando os primeiros fios de sol começam a ser entrelaçados formando a grande teia que é a manhã. Gritos de dor vindos do quarto ao lado. Gritos de dor. Corre, chama o vizinho. Corre, aplica injeção. O sentimento de impotência impregnado em cada poro da minha pele se complicava no desejo de resolver tudo. Como sempre, do meu jeito. Primeiro hospital. Dor. Injeções e sua mãe dizendo aos prantos que não quer ficar paralítica. Isso não vai acontecer. A dor está em toda parte vindo de todo lugar e de todas as pessoas. As dores se transformam em ferimento que causam mais dor. As dores nem sempre estão à mostra. Às vezes elas se escondem na forma de falar, de olhar. A profilaxia tem início logo cedo na busca pelas causas da dor. Muitos diagnósticos. Muitas suposições e nenhuma solução a não ser a medicantosa. O sono não existe.
Percebi que existe uma relação profunda entre solidariedade e doença. Não existe aquele que não se compadeça com a dor alheia, salvo as exceções de sempre. A vontade de ajudar mesmo sem ter a menor idéia do que fazer. A condição humana de sobreviver e se preocupar com quem está no leito ao lado. É triste observar que é preciso estar numa situação extremamente desagradável para se ter compaixão por outra pessoa. O hospital é na sua essência um local de compaixão e desgraça. O lugar deixa qualquer um doente enquanto trata os doentes.
CHUVA É O CÉU CHORANDO
Depois de quatro dias e pouco sem dormir nem descansar, com o corpo pedindo arrêgo em meio a tanta cobrança e preocupação não há como segurar. Chorei uma chuva de lágrimas logo após o desmaio. A postura firme e forte se esvaindo em meio à escuridão que se apossa da vista. A necessidade de se manter de pé, de não titubear e de provar pra si mesmo que a vida é difícil, mas é isso que a faz tão interessante.
As cartas não trazem poemas. As cartas mostram números que devem ser traduzidos em papéis para serem entregues até uma data específica. Isso se chama crescer: suas cartas são contas. O cabelo por cortar, a barba por fazer, as contas por pagar, o sexo sem fazer e o trabalho pra arrumar em tempo hábil. Junte tudo isso e você terá um quadro mais ou menos claro do que se passa por aqui. Reclamar? Oras, não há tempo para isso.
TODA DOR VEM DO DESEJO DE NÃO SENTIR DOR
Como essa frase tem sentido. Invariavelmente é possível enquadrar todo sentimento ruim nesta máxima budista. Eu não quero me preocupar, eu não quero passar mal e eu não quero que minha mãe sinta dor. E a dor vem. Quieta e exata como cobra. A dor está presente agora em minha vida na forma de contas, náuseas e preocupações. Agora escrevo sozinho na minha casa tão distante de tudo. Chove muito lá fora e a dor é solidão. Não sei se é solidão porque esse é um termo muito caro que deve ser utilizado somente em situações nada especiais. Tristeza boba aliada à vontade de duas doses de carinho e chamego. Pronto. Esse é o diagnóstico mais fidedigno. Por isso resolvi escrever e sei que enquanto escrevo a dor passa. A dor vai se perdendo em cada linha, cada palavra, cada vírgula e termina nesse ponto. Ao menos essa noite.
...se pensarmos que a vida do autor depende de inúmeros processos involuntários que se interligam em cadeias infinitas, podemos ousadamente dizer, ao ver o livro nas mãos dos leitores, que todo o universo conspirou para que ele existisse...
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2 comentários:
Nossa..senti cada palavra como se fosse minha, cada dor como se fosse a minha dor...
Ô amigo que lindo dom que você tem.
Te cuida,
Alinny Ayalla.
Não posso parafrasear nada de minha autoria, mediante um banho de lágrimas escritas e tapas de "acorde" a cada parágrafo. É acabei parafraseando algo de minha autoria. Descobri que a dor é o macho da foda literária que no fim te faz ter lindos filhos! Essa noite, pouco antes de vir ao trabalho e de vc me fazer merchandaise desnecessário do seu blog, porque eu o visito quase que todo dia, esperando manter de pé nosso workshop literário, ouivi a voz nada menos aguda, dolorida e penetrante de Ná Ozzetti cantando Milagrimas. Pra finalizar, pelo menos como eu queria começar, coloco o rerão singelo dessa música fantástica, que até a Patrícia Polayne já parafraseou: "a cada mil lágrimas sai um milagre". P.s.: se vc nao conhece a ná, vou te emprestar uns cds dela!
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