...se pensarmos que a vida do autor depende de inúmeros processos involuntários que se interligam em cadeias infinitas, podemos ousadamente dizer, ao ver o livro nas mãos dos leitores, que todo o universo conspirou para que ele existisse...

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

VOCÊ TEM QUE SER O SOL

COMO VIVER SOZINHO E QUERER FUGIR DE CASA

Tudo começa como de costume. A manhã com galos enlouquecidos vibrando: “olha o gás, olha o gás”. Acordo e não consigo ver o gás. O cabrunco do gás passou e eu nem vi. Também, já passa do horário marcado preu estar de pé e arrumado. Como sempre. Quando se mora sozinho é interessante ter sempre arrumado tudo o que vai usar no dia seguinte, um dia antes. O problema é que quem mora só, geralmente (e bota geralmente nisso) trabalha pelo dia e à noite – nossa – à noite a vontade mais urgente é a de se entregar aos braços de Morpheu.

Hoje é domingo. Um anjo da terra do maracatu me visitou mais cedo e aliviou uma das minhas dores. É engraçado. Começo a suspeitar que as amizades não nascem, amadurecem. Sinto-me estranho por escrever isto logo depois de ter recebido imenso favor. Seja lá o que for que te fizerem, agradeça.

A ligação mais esperada do dia ou da noite, não aconteceu. Talvez por pirraça ou por qualquer outro motivo ela não aconteceu. E como nossas vidas são uma completa passada de acontecimentos, tem gente que deixa de acontecer pra que outras apareçam. Talvez. Talvez as escolhas que façamos só estejam pré-determinadas quando deixamos que isso aconteça. Aconteça o que acontecer eu não me sinto tão destruído como antes. Como quando as pessoas deixavam de acontecer. E nada mais faz sentido quando se macula o local, o dia e o show esperado há dias.

AMOR PARA QUÊ?

Antes eu tinha uma leve impressão. Agora é certeza: eu não sirvo pro amor exatamente porque não sei o que fazer com ele. Desperta-lo é até fácil, o problema é regá-lo tanto tempo. Eu até tento, nossa como eu tento. O mundo e Rita sabem o quanto eu me entrego e quanto eu tento regar aquilo que sinto. O problema é que invariavelmente (variável essa que está se tornando constante) eu o deixo passar em virtude de um desmando ou outro aliado a uma insensibilidade descaracterística (?) da minha personalidade.

Simplesmente, de uma noite pra outra todo um sentimento se desmorona. Isso é possível? Claro que sim, desde que este sentimento ou nunca tenha existido ou tivesse sendo pouco a pouco apertado, comprimido dentro do peito. Inventar amor é foda. Mas eu não invento o que sinto. A necessidade de estar perto, o desejo conciliado com aquele carinho e a preocupação não são forjados.

O que importa é que num prazo pequeníssimo de três milhões de dias todo um sentimento raro – desses que não se acham por aí – amor batuta mesmo foi se desmilinguindo. Sem sinal, como chamadas perdidas e telefones que não atendem. Até que no dia, naquele dia, naquela noite e naquele local tão esperado, tão desejado, sonhado e perfeitamente arquitetado para que se tornasse único e página substancial de uma história começada sem início não aconteceu.

Pior, aconteceu. Só que o que aconteceu estava fora de foco e concordando com palavras realmente houve uma lancinante e estreita visão de consideração pelo ser amado ao se entregar a um beijo justamente naquele local, naquela noite, naquele lugar.

MINHA HERANÇA É UMA FLOR

Desses dias que se passam aqui longe de tudo, no extremo dos pólos se tiram algumas lições. A solidão de não haver ninguém perto mostra a clareza da televisão. Solidão é quando se perde de si mesmo e eu estou aqui. O sentimento pouco a pouco negligenciado dia após dia alicerçou o que hoje é somente uma lembrança. O fato de não estar só durante a semana implica no não reconhecimento da dor incubada de mais um fim. Mas como pode ter sido fim se não houve um início? Uma porra! É claro que houve início. Seja lá qual nome você prefira rotular o que se passava conosco ele começou e teve um fim (?). E porque acabou se o teu cheiro não se tornou esporadicamente nocivo a mim? Não se tornou ruim porque você não estava lá. E se eu não soube respeitar os ponteiros é porque eu não sabia da necessidade desse respeito já que tínhamos acertado a conversa, tínhamos mesmo acertado a conversa.

A tentativa não é a de reconhecer nem de se desculpar. Desculpas? Só praquilo. Pelo espaço... O que deixo é uma flor, uma linda flor macia e de pétalas verdes. Uma flor que por um bom tempo reguei, mostrei o sol, dei e tomei a vida. Dessa flor fico com o perfume bom que não se usava, a lembrança dos sonhos plantados e nunca colhidos e uma leve desesperança de vê-la novamente com aqueles olhos verdes de pétalas.

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