Assim que ela entrou no meu campo de visão, meu coração deixou de
ser um latifúndio improdutivo. Ela não fez nada para que isso acontecesse, não pediu. Para ser sincero, nem eu mesmo queria que aquilo tivesse rolado. Bem, pelo menos não daquela maneira tão repentina. Eu estava sujo, com o cabelo pior do que de costume, barba por fazer, sentindo-me mal com aquela roupa, com sono, cheirando a maconha que uns colegas tragavam do lado de fora. Deprimente. E ela... ah... ela fingia que dormia bonitinha num colchonete fininho.
Sempre curti meninas estranhas. Ela não é lá tão estranha. É esquisita. Fofa. Há pessoas muito mais estranhas por aí. Mesmo assim, qualquer um que me conheça é capaz de olhar para ela e afirmar que eu me encantaria por uma guria do jeitinho daquela ali. Não é para menos: ela falava de um jeito estranho, seus olhos comprovam que ela deve estar permanentemente num estado de letargia.
Deu-me um surto de loucura e macheza (geralmente eles andam lado a lado) e eu decidi que trocaria nem que fossem duas palavras com ela. Oi. Tchau. Tentei. Eu não sabia nem como começar. Só sabia que tinha de fazê-lo. Estava na hora de arriscar. Destino? Acaso? Não me lembro de ter falado coisa mais idiota para uma menina. "Eu vou embora..." Não fiquei com vergonha. Ela sorriu. "Senta aí negão...". Conversamos.
CONTANDO MENTALMENTE
Ela tem o mesmo nome da falecida. Gravei na hora. Engraçado,
lembro-me de tudo o que conversamos. E isso não acontece comigo. Geralmente, escuto as meninas falarem qualquer coisa sem me preocupar em lembrar depois, só para tentar surpreendê-las na hora com alguma frase de efeito, pegá-las de supetão, manjas? Com aquela ali, era diferente. Lembro-me bem um dia desses quando ela me disse que tinha 22 pra 23 anos. Tive medo, mas comecei a calcular mentalmente, enquanto ela falava (admito: não lembro o que ela falou enquanto eu calculava), a diferença de idade entre nós. Tive medo. De 23 para 21. Dois. É nada. Alguns meses a mais outros menos. Não, não.
Continuamos a conversar. Eu começava a frase ela terminava. Um cariho absurdo que não tinha vontades sacanas e a chuva caindo solta do lado de fora. O papel dela em minha vida já estava escrito, o filme já havia sido rodado. Sucesso de bilheteria.
Sem que ela ou eu pudéssemos prever, aquela menina fez com que eu voltasse para minha casa e pensasse que o poeta estava mesmo certo: “O passado a gente esquece e há sempre alguém novo para amar”.
Aqueles olhinhos verdes me desenterraram de um buraco do qual tinha certeza que não sairia tão cedo. Guardo todos os traços dela em minha mente. Penso naquela coisinha bem no meio do trabalho, sem razão aparente. Eita Juliana, que bem você me faz...
...se pensarmos que a vida do autor depende de inúmeros processos involuntários que se interligam em cadeias infinitas, podemos ousadamente dizer, ao ver o livro nas mãos dos leitores, que todo o universo conspirou para que ele existisse...
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Um comentário:
hahaha , tá fazendo coleção de Julianas, é?
adorei o texto
:*
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