...se pensarmos que a vida do autor depende de inúmeros processos involuntários que se interligam em cadeias infinitas, podemos ousadamente dizer, ao ver o livro nas mãos dos leitores, que todo o universo conspirou para que ele existisse...

segunda-feira, 11 de junho de 2007

amor...

A história é simples: típica conversa de bar. Antônio, camisa listrada de mangas compridas, 32 anos, pediu uma cerveja. Era inverno. Luana, nome escolhido pela mãe devido ao nascimento em Lua cheia, óculos escuros mesmo que fosse de noite, sentou ao seu lado e pediu uma soda. Naquele bar de Aracaju, a música era tocada pelo próprio Antônio Nóbrega, antes de ser mundialmente conhecido em Recife. Mas quem iniciou o papo foi outro Antônio.
Antônio: Tudo bem?
Luana: Oi. Eu já te vi antes por aqui... Lembro que achei bem interessante seu
jeito.
Antônio: É? E chegamos a nos falar? Bem, é que faz muito tempo que não venho
aqui, meses, aí não lembro... És de onde?
Luana: Moro no siqueira. Entre a zona norte e a zona sul. Como que no meio do
Novo Mundo.
Antônio: Eu moro na 13 de Julho, mas fico a maior parte do tempo no Jardins, num
que tenho ali. Chamo o local de Mansão Machado de Assis, 137. O escritor, sabe?
Luana: Era um mulato, meio gago?
Antônio: Esse.
Luana: Machado era como eu. Você não entenderia minha vida... Têm umas coisas
no meio aí que você não sabe...
Antônio: Não sei? Pois me conte tudo!
Luana: Ora, pense bem e descobrirá!
Antônio: Mas não fiz nenhuma pergunta. Como descobrir o que não se procura?
Não concordas?
Luana: Não! Somos muito diferentes.
Antônio: E isso lá faz alguma diferença? Nem mesmo nos conhecemos. Ou melhor:
assim o creio, porque não me recordo de Luana descendo para o asfalto.
Luana: Antônio, como sabes meu nome?
Antônio: Da mesma forma que és ciente de como me chamam. Você mesma disse
que já nos vimos... É aquele ditado: “Quem só vê cara, às vezes, fica na solidão”.
Luana: A solidão é para os loucos. Ou para os que nada sabem da experiência.
Antônio: Para ser franco, desconheço muito e nem sei da missa um terço. Nem
mesmo um treze avos. Mas acho que isso não é problema. Pelo contrário: é o que me
motiva em minhas discussões diárias. Seja com os amigos ou com minha cadela.
Assim, sinto-me, debalde, revigorado, em paz. Ainda que numa paz questionável,
como tudo o mais.
Luana: A sabedoria popular é a verdade mais próxima que temos. Veja você esse
nosso momento juntos. Carne defronte carne.
Antônio: Se somos um único mistério, eu te aceito como parte de mim
Luana: Isso me lembra uma história que ouvi no Bairro América. Sujeito desceu o asfalto e perguntou como subir,
porque esquecera o caminho de casa. Foi lá, perguntou para o policial e sabe do que mais?
Terminaram por tomar uma cerveja juntos.
Antônio: Isso mostra que as coisas não são apenas frutos da imaginação.
Em qualquer lugar, qualquer época. E digo isso porque já viajei os quatro cantos desse país.
Luana: Entendo. Vejamos os fatos antes de mais nada, diz-nos a filosofia da vida.
“Paciência, Iracema, paciência” cantavam nalgum samba antigo.
Antônio: A frase a qual ludibriei-me em dizê-la assim que você sentou ao meu lado foi:
“Vamos sair deste lugar abafado e conhecer a natureza do mundo”?
Luana: E eu diria não, como já o fiz para outros com melhor conversa.
Diria não porque tudo tem um fim, mesmo o amor. E assim, sem dizer nada, diria tudo.
Antônio: Se tenho o direito de encerrar essa conversa, adeus.
Quero deixar em teus olhos a mensagem que explica que tudo que eu queria de você,
não poderias me dar jamais! Pudera eu ter em minhas mãos o segredo dessa caixa de Pandora,
pois que a culpa primeira, e a primazia de tudo, do fogo, devemos aos atos loucos de Prometeu.
Boa noite, Luana. Leva meu amor contigo!

E nunca mais se viram. Ou se viram, mas sempre viravam o rosto
para não ter que enfrentar a crueza do mundo e a certeza de não saber absolutamente nada.

Um comentário:

Juliana G. disse...

:P

o palhaço!

gostei dos posts!
=)

só fiquei curiosa pra saber quem é a loira da postagem anterior!

hahahaha

Beijos na alma!