...se pensarmos que a vida do autor depende de inúmeros processos involuntários que se interligam em cadeias infinitas, podemos ousadamente dizer, ao ver o livro nas mãos dos leitores, que todo o universo conspirou para que ele existisse...

segunda-feira, 7 de maio de 2007

carta a uma amiga

Há três modos de abrirmos o coração e revelar um segredo que ele contenha: confiar, confessar e confidenciar. Confiamos um segredo a alguém, com certo tom de superioridade e como quem entrega uma jóia para ser guardada ou transmitida. Nessa comunicação secreta não entregamos nada de nós mesmos a não ser o fato em si, o objeto da prova de confiança que damos ao amigo ou ao mensageiro. Confiar é entregar alguma coisa a alguém e não se entregar a alguém.

Confessar é abrir todo o coração. É confiar não só o segredo, mas ainda tudo o que o acompanha. É ir ao fundo da alma e entregar a outrem, com um sentimento patente de inferioridade e humilhação, tudo o que nela vive e palpita, sem reserva alguma. A confissão é a libertação de um peso, é o alívio de um remorso, é a entrega quase egoística de um mal que nos oprime, de um segredo hostil que nos queima as entranhas.

A confidência não é a mesma coisa. Não tem a seriedade do ato de confiar, que desce, nem a angústia de confessar, que sobe. A confidência se passa no mesmo nível, entre almas afins, entre corações que se sentem irmãos. É uma entrega completa – não de um segredo que se precise confiar a alguém, por este ou aquele motivo, ou confessar porque nos faz mal a sua guarda, - e sim de uma intimidade que se comunica sem necessidade, sem motivo algum, a não ser o próprio prazer de transmissão. Enquanto a confissão ou a confiança constituem atos unilaterais – é a confidência por natureza recíproca. Entregar-se, recebendo.

Engraçado dizer tudo isso. Penso aqui com meus botões em meio a estes enxertos de papel velho e emprestado. Sim, creio também que a mocidade é a idade filosófica por excelência. Não que o nosso espírito já esteja então suficientemente amadurecido para poder penetrar a fundo os grandes problemas do universo e muito menos para formular sistemas próprios ou reformular idéias eternas. Mas é nessa idade que os grandes problemas metafísicos nos interessam de modo mais angustioso. Fomos, na adolescência, muito mais sensíveis à poesia e à religião, ou então às artes que vivem da exteriorização e do movimento. A adolescência fora a idade do cinema. A mocidade é a idade da controvérsia.

Sou moço [...]. Digo isso com propriedade. Tenho 20 e poucos anos e estou em plena controvérsia de sentidos e comportamentos. Tem um certo tempo que a minha falta de responsabilidade me acompanha lado-a-lado. Sempre à espreita colocando o pé pra que eu possa tropeçar. Bobo, sempre coloco a culpa numa possível má sorte. Besteira. Tomei uma decisão hoje, mas creio que não fui de todo sincero. A necessidade de dizer certas palavras às vezes ou até mesmo de dizer alguma coisa me tira de situações embaraçosas, mas cria ocasiões de despautérios no futuro.

Em outro momento eu continuo. Tenho que dormir agora.

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