...se pensarmos que a vida do autor depende de inúmeros processos involuntários que se interligam em cadeias infinitas, podemos ousadamente dizer, ao ver o livro nas mãos dos leitores, que todo o universo conspirou para que ele existisse...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

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O homem está sentado em primeiro plano nesta sala, sobre um pequeno tapete e com as pernas cruzadas numa posição ioga. O homem está descalço e sem camisa, vestindo apenas uma calça grosseira e rasgada. A barba, o bigode e os cabelos cobrem-lhe praticamente todo o rosto, mas não o suficiente para ocultar que ele é quase albino de tão louro e branco.
O homem segura uma guitarra elétrica apontada para o observador como se fosse uma metralhadora. Mas da ponta da metralhadora – ou guitarra – saem balas de confeitaria e escorre, fracamente, um líquido amarelado.
Sobre a cabeça do homem, em letras grandes e vermelhas, imitando fogo está impressa a palavra “inferno”. E, em letras menores e também vermelhas, o nome Lúcifer Smith. Envolvendo tudo há um papel celofane que é rompido nesse momento. Duas mãos retiram o disco de dentro da capa e o levam para um toca-discos no canto da sala. Esta é um outra sala com um tapete verde, móveis novos e bem organizados, adornos sombrios, quadros nas paredes e um televisor ligado com uma garota sorridente no vídeo. Ela anuncia um televisor igual àquele e ligado, numa sala idêntica e onde se acha, esquecido num canto um disco cujo nome “inferno” da banda punk The Smith aparece em letras grandes e vermelhas.
Desliga-se o televisor e apaga-se a luz. Escuta-se, a princípio, apenas o chiado irritante da agulha sobre os sulcos iniciais do disco. Mas logo depois se ouve o som de guitarras, contrabaixo e bateria. E uma voz começa a cantar assim: “Estou farto de tudo e vou tomar o ônibus vinte e sete e viajar para outra galáxia”.

domingo, 6 de janeiro de 2008

AS CONSTELAÇÕES (Em nome de Alá, o compassivo, o piedoso)

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Na mesinha: Uma velha radiola, com um disco no prato, presumivelmente rodando. No chão, ao lado da mesinha e com o focinho junto à radiola encontra-se um cachorro como se escutasse a música. Ao lado da radiola está a capa do disco onde se acha gravado um cachorro igual àquele e na mesma posição e também escutando a uma radiola idêntica. Sobre o cachorro (o da capa do disco) está escrito RCA. Mas não se pode ler qualquer outra palavra porque em cima da capa do disco há uma casca de banana. Porém, é possível ler, no canto direito do observador, duas letras finais: E e N. Possivelmente o fim do nome BETETHOVEN.

Outros móveis pela sala: Um sofá velho e ensebado, com algumas das molas à mostra e baratas andando pelo forro; uma cadeira tosca de pau e, sobre ela, um cachimbo e uma caixa de aberta, contendo um fumo de cor esverdeada; uma televisão, ligada, mostrando uma garota que anuncia - sorrindo - um aparelho de televisão igual àquele e onde aparece ela própria, a garota, anunciando o mesmo televisor e assim sucessivamente;um piano de cauda sobre o qual descansa uma travessa com um peixe morto, cercado por velas acesas. E vê-se, de perfil, sentado no banquinho e com os dedos no teclado, um esqueleto vestido a rigor.

Objetos espalhados pelo chão: Um jornal totalmente aberto, mostrando a 1ª e a última página. Na primeira, a manchete é CRISE em letras garrafais. E há o retrato de um homem baixo, gordo e calvo, de terno escuro e passando, naquele momento, um lenço no rosto suado. Rosto em que se sobressaem os músculos tensos e a expressão preocupada. Na última página, a manchete é: SUICIDOU-SE NO SUPERMERCADO. E logo abaixo a fotografia do cadáver, com vários curiosos ao seu redor. É um grande anúncio onde se vê também a palavra "supermercado" e uma porção de preços e desenhos de mercadorias.

Outros objetos espalhados pelo chão: Uma gaiola sem pássaros, mas com ossos de pássaros lá dentro; uma moldura sem quadro; uma garrfa de vinho e copos; uma estatueta de Buda; uma revista do homem-aranha, notas e moedas, pílulas, dois dados; roupas de baixo femininas; carrinhos e soldadinhos de plástico; diversos livros, três dos quais ostentando nitidamente os títulos: "Minha luta", de Adolf Hitler; "O profeta", de Gibran Kaliu Gibran e "Como cultivar e coexistir com a neurose", de Carl Sigmund.

ET CETERA

(continua)