- Romântico, como todo amor merece!
O amor era mesmo grande. E por isso ficara guardado durante meses e meses. Não tivera coragem de abrir o segredo com nenhum dos amigos. Imaginava a gozação, a brincadeira, a farra. Seria insuportável ficar na classe, assistir as aulas se algum deles soubesse do seu tão bem guardado amor.
- Não é um amorzinho qualquer não, desses que começam e acabam numa mesma festa, numa única noite.
Era pra valer. Para demorar. Para sempre, talvez. Uma paixão que começara demorada e por partes. Primeiro fora pela voz dela. Macia como veludo novo. Gostava de ouvi-la falar e, quanto mais perto ela falava, mais se apaixonava. As palavras, os números e as idéias saíam como vindos do fundo do coração. Depois os olhos. Não eram verdes nem azuis como as atrizes de TV e manequins de revistas. Eram apenas pretos. Belamente pretos. Pareciam querer ver o mundo inteiro, de todo mundo, por seu par de olhos. Parecia descobrir telepaticamente em que as pessoas da classe pensavam. Uma vez quase o desarmara, quando sugeriu – de repente – flagrando-o no mundo da lua: “pensando no seu grande amor?”. Ele se atrapalhara, sem resposta e ela permanecera inteira, dona da brincadeira, deliciando-se com o sem-jeito dele. Depois da voz e dos olhos, descobriu os cabelos. E sonhou com eles tantas e quantas vezes seu sono atribulado permitiu.
Sonhava com os cabelos dela roçando de leve sua face. Em seguida, veio o sorriso. Depois as mãos, os dedos finos e as unhas de esmalte escuro. Finalmente apaixonou-se pelo corpo todo, por ela inteira. E aí a coisa ficou doida. Enquanto eram os olhos, os cabelos, o sorriso, as mãos, dava pra esconder, guardar num pedacinho de vida qualquer, numa página de caderno ou livro. Mas quando ela inteira tomou conta do seu coração novo, desacostumado a essas comoções mais fortes, ficou mais difícil de agüentar. E foi um tal de ficar mal-humorado, de rejeitar conversas longas, de fugir das farras do grupo, de se atrapalhar com as aulas, notas e exercícios.
- É hoje ou nunca mais. No fim da aula ela vai saber do meu amor. Dê no que dê, ela vai saber.
Tinha, é verdade, uma grande problema: a diferença de idade entre os dois. Ele era um molecão e ela, uma mulher. Bem... as mulheres são mesmo assim, se desenvolvem e amadurecem mais depressa do que os homens. Sempre ouvira isso e teria esse detalhe a seu favor. Claro, imaginando que seu grande, bonito e romântico amor, fosse compreendido.
- Isso não importa.
Tinha até procurado – e encontrado – algumas poesias de poetas famosos e não famosos que tratavam do assunto: amores descompassados de idade. E vivia dizendo que o amor não tem idade. Dizia isso mesmo numa acalourada redação de português em que narrou o amor de um jovem por uma mulher madura, texto terminado pelo clichê: “O amor não tem idade”. Estava cheia de erros de ortografia e pontuação. A professora, insensível, classificara o trabalho do apaixonado escritor de “razoável” e inundara-o de riscos, cruzes e sinais indecifráveis.
- Ela não entenderia.
Nem ele entendeu o que é “paichão”, vai ver que eu tinha pensado em “paixão”. Só quem vive um grande amor assim poderia escrever esquecido das regras gramaticais. E inventou outro clichê: “O amor não conhece regras gramaticais”.