Entusiasmado com o sexo, Florentino Ariza desenvolveu um mote simples:“O mundo está dividido entre os que trepam e os que não trepam”.
Os que trepavam “eram uma loja maçônica hermética, cujos sócios se reconheciam entre si no mundo inteiro, sem necessidade de um idioma comum”, devaneia Gabriel García Márquez, continuando o que pensa esse seu personagem de O Amor nos Tempos do Cólera.
Também entusiasmado, afiei o mote de Ariza: “Os homens estão divididos entre os que já fizeram ou não fizeram um ménage à trois com duas mulheres”. Mas eu estava entusiasmado porque jurei que passaria de um lado pro outro na minha própria classificação. E não passei. Apenas quase, muitas vezes quase: já estive até dentro de uma banheira com duas, só que nunca concluí a empreitada. Talvez somente Vanderlei Cordeiro de Lima, quando teve seu evidente ouro esfarelado pelo padre irlandês que invadiu a pista no final da maratona na Olimpíada de Atenas, viveu frustração gêmea.
Se o seu plano inclui a gata oficial, faça estudos prévios do terreno pantanoso que é verbalizar safadezas assim. Esperei a hora certa e propus, pra uma namorada da década de 90, incluirmos a prima dela na nossa cama. Ela prometeu que tentaríamos. Aquele se tornou o tema recorrente dos nossos sexos. Acho que a prima dela fez mais sexo na nossa imaginação do que na vida real, até hoje. Uma noite deitamos os três em colchões espalhados num quarto. Estava dada a largada? É claro que não, minha namorada sussurrava, me arrancando alguns pêlos do braço. Mas depois fez sexo comigo ali mesmo, pra mostrar que não estava ressentida. Cochichando, pra variar, algumas coisas sobre a prima.
Sou ativista político, escrevo poesia, sou (?) ator e tenho olhos cativantes. Trabalhei numa empresa em que tinha 14 empregadas e 2 empregados. Assim, a questão do ménage à trois era uma questão de tempo. Até que, em 2000, fiquei com quatro ao mesmo tempo em Itabi. Tudo bem, se fosse numa quermesse no Santa Tereza é que seria absurdo. Mas quatro, meu amigo?
Eu conhecia uma delas, e as restantes eram amigas dessa. Descobri depois, já estava tudo combinado. Fui apenas vítima de um golpe que acontece infalivelmente, a cada dois ou três séculos naquele interior. Hospedadas no único hotel da cidade, elas saíram de casa determinadas a compartilhar alguém, a partir do que fui o fantoche desse descaso lúdico. Enfim, me dei bem pra cacete.
Uma gritava “fecha!”, e todas me beijavam onde havia espaço. Os bebos me hostilizavam. Mas uma hora depois, uma delas beijou outro cara. Outra também, e pra evitar a continuação da pilhagem fui a um beco com a metade que me restava. Nada que lembrasse as cenas estilizadas do Sexytime: um terreno baldio com alguns sacos de lixo e um Chevette. Me apoiei no Chevette e senti uma língua em cada orelha. Duas mãos abriram o meu zíper, e a libertina itabiense de setembro entrava indelevelmente no meu “the best of” luxurioso.
Maconha. Umas dez pessoas no começo da rua seguiam na nossa direção pra fazer do beco um festival canábico. Interrompemos tudo. Nenhum dos três (as duas também eram de Aracaju) sabia onde havia um motel em Itabi, e não tínhamos muito dinheiro, e as duas nem faziam questão de concretizar o bundalelê: já tinham perdido a curiosidade com um mazanza que dividiram, que “não deu conta”.
MAIS UMA TENTATIVA
A terceira tentativa substanciosa foi quando entrei no curso de turismo. Fiquei, numa festa, com uma veterana que ganhou, por uma vantagem deselegante sobre a segunda colocada, o prêmio de mais safada do curso. Uma serpentina deixava vazar chope de graça. Um coro berrava “ninguém é de ninguém”.
Fomos lá pra casa. Uma ninfomaníaca. Fazíamos planos o tempo todo sobre o ménage à trois, como um casal combinando a compra da casa. Cogitamos chamar uma profissional. Até abrimos os classificados, mas esbarramos no bom senso: como eu, ela era da crença de que uma sacanagem com profissionais é uma paródia da verdadeira safadeza. Convidei então uma atriz com quem eu saía às vezes. Não quis. Desencanada, sim, mas peralá. Até que um dia mudou de idéia: mostrei uma foto da estudante de hotelaria – sem blusa. “Por que não mostrou antes?”, disse.
“Ah, convenceu a menina do teatro? Legal, mas sabe o que é? Conheci um cara. Tô apaixonada. Não vejo mais sentido em fazer essas coisas. Não dá. Nem consigo”, disse a outra.
Só voltei a querer me engalfinhar a três porque outra atriz (sempre elas) com quem saí disse que queria perder sua virgindade na sem-vergonhice tripla. Saquei do baralho uma dama devassa: 25 anos, divorciada, siliconada, virgem de pegações desse naipe, mas com um apego pelo experimentalismo que só. Numa noite resolvi colocar tudo em prática. Amigo meu diz que o chope é o cimento da sociabilidade. Comprei logo uma garrafa de Bacardi Lemon e uma de Martini e várias latas de cerveja. Fomos até a Poyesis (num sei como se escreve, tava muito bêbado) entornando os canecos. Chovia. O papo minguava. Até que elas descobriram um nome em comum, uma cantora tia de uma e amiga de outra. Sensacional.
Fomos ao barzinho em que estava essa cantora. Ouvimos o show enxugando caipirinhas e, se quem perde o telhado ganha as estrelas, eu logo compensaria umas botinadas amorosas que vinha levando de uma universitária. Na rodovia que leva às praias do norte e a uma série de motéis, elas se beijaram. Até conseguir um motel com bons quartos por bons preços, a divorciada já havia secado o Bacardi Lemon. Liguei a banheira, pulei dentro. A atriz também. A divorciada foi ao banheiro.
Passou mal.
Pedi ajuda pra outra. Que não ajudou porque estava se deliciando com os jatos da hidromassagem. As duas chegaram no auge do que faziam praticamente ao mesmo tempo. Comigo no meio.
Ah, Florentino Ariza também nunca chegou lá. Guardou,“em uns 25 cadernos 622 registros de amores continuados, à parte as aventuras fugazes que não mereceram uma nota de caridade que fosse”, mas nunca se ensabonetou com duas. Seu objetivo era Firmina Daza, por quem esperou mais de 50 anos. De qualquer maneira, não fez o ménage à trois. Nem mesmo viu umas lambiscadas pré-motel.