...se pensarmos que a vida do autor depende de inúmeros processos involuntários que se interligam em cadeias infinitas, podemos ousadamente dizer, ao ver o livro nas mãos dos leitores, que todo o universo conspirou para que ele existisse...

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

CHUVA, HOSPITAL E MUITAS DORES.

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Geralmente quando escrevo deixo o título por último. Faço assim porque só sei que nome dar ao que escrevo depois que leio. Preciso primeiro criar o filho pra depois batiza-lo. Não há como vir com o nome pré-pronto, não dá pra conferir no mapa astral que nome ficaria melhor ou qual insígnia soaria melhor nos olhos de quem lê. Esse é diferente. Comecei pelo título porque é a partir destas três expressões que desenrolarei o que se passa nos últimos dias. Dias de chuva, hospitais e dores – muitas dores.

E A DOR NÃO PASSA

Tudo começa quando os primeiros fios de sol começam a ser entrelaçados formando a grande teia que é a manhã. Gritos de dor vindos do quarto ao lado. Gritos de dor. Corre, chama o vizinho. Corre, aplica injeção. O sentimento de impotência impregnado em cada poro da minha pele se complicava no desejo de resolver tudo. Como sempre, do meu jeito. Primeiro hospital. Dor. Injeções e sua mãe dizendo aos prantos que não quer ficar paralítica. Isso não vai acontecer. A dor está em toda parte vindo de todo lugar e de todas as pessoas. As dores se transformam em ferimento que causam mais dor. As dores nem sempre estão à mostra. Às vezes elas se escondem na forma de falar, de olhar. A profilaxia tem início logo cedo na busca pelas causas da dor. Muitos diagnósticos. Muitas suposições e nenhuma solução a não ser a medicantosa. O sono não existe.

Percebi que existe uma relação profunda entre solidariedade e doença. Não existe aquele que não se compadeça com a dor alheia, salvo as exceções de sempre. A vontade de ajudar mesmo sem ter a menor idéia do que fazer. A condição humana de sobreviver e se preocupar com quem está no leito ao lado. É triste observar que é preciso estar numa situação extremamente desagradável para se ter compaixão por outra pessoa. O hospital é na sua essência um local de compaixão e desgraça. O lugar deixa qualquer um doente enquanto trata os doentes.

CHUVA É O CÉU CHORANDO

Depois de quatro dias e pouco sem dormir nem descansar, com o corpo pedindo arrêgo em meio a tanta cobrança e preocupação não há como segurar. Chorei uma chuva de lágrimas logo após o desmaio. A postura firme e forte se esvaindo em meio à escuridão que se apossa da vista. A necessidade de se manter de pé, de não titubear e de provar pra si mesmo que a vida é difícil, mas é isso que a faz tão interessante.

As cartas não trazem poemas. As cartas mostram números que devem ser traduzidos em papéis para serem entregues até uma data específica. Isso se chama crescer: suas cartas são contas. O cabelo por cortar, a barba por fazer, as contas por pagar, o sexo sem fazer e o trabalho pra arrumar em tempo hábil. Junte tudo isso e você terá um quadro mais ou menos claro do que se passa por aqui. Reclamar? Oras, não há tempo para isso.

TODA DOR VEM DO DESEJO DE NÃO SENTIR DOR

Como essa frase tem sentido. Invariavelmente é possível enquadrar todo sentimento ruim nesta máxima budista. Eu não quero me preocupar, eu não quero passar mal e eu não quero que minha mãe sinta dor. E a dor vem. Quieta e exata como cobra. A dor está presente agora em minha vida na forma de contas, náuseas e preocupações. Agora escrevo sozinho na minha casa tão distante de tudo. Chove muito lá fora e a dor é solidão. Não sei se é solidão porque esse é um termo muito caro que deve ser utilizado somente em situações nada especiais. Tristeza boba aliada à vontade de duas doses de carinho e chamego. Pronto. Esse é o diagnóstico mais fidedigno. Por isso resolvi escrever e sei que enquanto escrevo a dor passa. A dor vai se perdendo em cada linha, cada palavra, cada vírgula e termina nesse ponto. Ao menos essa noite.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

TREPAI-VOS, IRMÃOS

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UM TRATADO SERIÍSSIMO POR UM MUNDO MELHOR

Cresci com a minha mãe dizendo que homem que só pensa em sexo não é
coisa boa. Tantos livros para ler, tantas contas para pagar, tanta tristeza e violência no mundo, tanta coisa séria para pensar... Sinto muito, mamãe. Mas acho que vou te decepcionar. Sabe, fiz uma recapitulação da minha vida e descobri que, apesar de tudo, não passei um segundo da minha existência pensando em outra coisa.
Eu nunca comecei cursos ou empregos novos verdadeiramente motivada pelos desafios de uma carreira ou de salários melhores. O que sempre me impulsionou era a pergunta: aqui tem um bom número de mulheres que eu comeria? Não? Então, não quero.
Não que eu fosse pra cama com todas. No final das contas, apesar de eu adorar a minha personagem que vende o oposto, acabo não trepando com tanta gente assim. Mas não há nada melhor do que estar em um ambiente onde isso poderia acontecer. E que atire a primeira pedra o ser humano que não pensa assim. Juro que não é promiscuidade,é apenas a natureza. Sexo é a melhor coisa da vida e ponto final. Quando acabam as chances de ele acontecer, partimos para outros ares.
Os homens compram carros maiores; as mulheres, peitos maiores. Eu mudo de emprego ou turminha de amigos. Mas a verdade é que estamos todos pensando em sexo. Até um filme interessante é ainda mais interessante quando alguém quer transar com você porque você achou o filme interessante.
Existe fazer a mala feliz se você não tiver ao menos uma esperançazinha de fazer sexo no lugar para onde está indo? Sejamos sinceros. Claro, sou homem e na maioria das vezes, apesar de eu me odiar por isso, me apaixono. E sempre imagino a desejada da vez engravidada por mim vestida de jardineira jeans e blusinha. Sou bobinho. Mas que, apesar de tudo isso, eu gosto de trepar e só penso nisso, ah, isso é verdade.
ZEN-VERGONHA

Não consigo ser sério. Certa vez um grupo de amigos me perguntou se eu gostaria de ajuda-los fazendo propaganda sem fins lucrativos para algumas ONGs. Num primeiro momento, pensei: trabalhar de graça e ainda por cima pra ONG, nem a pau. Depois, fui na primeira reunião e constatei: bom, das sete meninas que estão no projeto, eu comeria quatro!Topei na hora e nunca fui tão engajado. Teve outra vez também que estava lutando por um emprego de chargista em dois jornais. Escolhi a que ia me pagar muito menos, mas tinha a editora-chefa mais gostosa. Claro! Dinheiro é bom, mas sem sexo não vale de nada. E sorte de quem tem uma boa vida sexual associada a um amor verdadeiro.
Essa soma sim é a verdadeira busca da vida. Que Caminho de Santiago que nada. Que meditar em cima de uma montanha que nada. Já viu alguém que está superfeliz no amor e trepando horrores sumir para encontrar seu verdadeiro eu? Isso é coisa de quem tá na seca ou acabou de levar um pé na bunda. Entre um belo corpo nu e um tronco, só um babaca vai preferir trocar energias com a árvore. No último retiro espiritual em que me meti, só não morri porque pegava o canal Playboy na televisão do quarto.
Mas sabe, mãe. Eu não acho que meu prazer seja tão egoísta quanto você pensa. Eu lembro que uma vez estava caminhando na praia e vi uma bolinha de frescobol atingir uma gordinha mal-humorada. Ela esbravejou. Ameaçou bater no moleque. Tocou o terror. E o pai do garotinho, que estava jogando frescobol com ele, apenas gritou: “A senhora não goza, não?” Adorei aquilo.
Acho que a violência nada mais é que o desejo sexual reprimido. Nada me tira da cabeça que, se todos transassem loucamente, o mundo seria infinitamente menos louco. ::