...se pensarmos que a vida do autor depende de inúmeros processos involuntários que se interligam em cadeias infinitas, podemos ousadamente dizer, ao ver o livro nas mãos dos leitores, que todo o universo conspirou para que ele existisse...

terça-feira, 24 de julho de 2007

PERFEITO MEDÍOCRE

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A receita para morrer sem ao menos viver


Tente ser o melhor. Tente reduzir o consumo de porcarias. Tente baixar o seu colesterol. Coma menos açúcar. Use seu melhor sorriso. Use seu tempo disponível. Todo ele, de preferência. Escolha uma carreira. Tente ser o melhor nela. Saiba, portanto, que seu esforço pode não ser o suficiente. Chegue sempre no horário, assim você estará mais propenso às oportunidades. Oportunidades se traduzem em dinheiro (este que parece ser o combustível por estas bandas). Tente ser realizado profissionalmente. Para isso esqueça o cara ao lado que não faz 10% do seu trabalho e ganha dez vezes mais do que você (esqueça também os salários dos jogadores de futebol). Aprenda outra língua. Aprenda quantas línguas puder. Aprenda a segurar a sua língua. Saiba ficar invisível. Fique assim sempre que sentir vontade de gritar com alguém. Ou até consigo mesmo. Aprenda a segurar as emoções. Principalmente em público.

Marketing é tudo. Tente vender-se da melhor maneira possível. Apare suas arestas. Exceções não são bem-vindas. Embora gostem de valorizar os extraordinários, somente na mediocridade se encontra a paz. Seja mediano. Seja medíocre. Guarde seus melhores pensamentos e idéias para você mesmo. Execute-os nos seus sonhos. Aproveite a vida. Aproveite a juventude. Conheça países distantes. Sonhe com Nova York. Roube e traga consigo as emoções falseadas dos musicais da Broadway, enquanto pensa em aviões e prédios. Sonhe com Londres. Imagine uma existência mais feliz por estar perante o Big Ben e uma realeza postiça. Sonhe com Paris. Lembre dos ideais da Revolução enquanto passeia na Dior, Hugo Boss ou Calvin Klein. “Liberté, Égalité, Fraternité”. Esqueça Níger. Esqueça São Paulo. Esqueça Bogotá. Esqueça o Hemisfério Sul. Por que ele ficaria ao Sul, afinal?

PROCURE UM AMOR
Tenha um credo. Acredite piamente em algo maior (deve haver algo maior). Facilita muito as coisas. Aprisione a sua criança interior. Mesmo quando esta insistir em escapar por uma gargalhada ou em uma manhã de sábado quando o brilho do sol tentar mascarar que as coisas não são tão ruins. Por fim, procure um amor. Achando, bom pra você. Não achando, bom pra você. Mesmo que ache, ainda assim seu fim poderá ser sozinho (e não há do que se envergonhar). Ouça boas músicas. Veja bons filmes. Até mesmo aqueles com o Jim Carrey se conseguir considerá-los bons filmes.

Atenha-se aos prazos. Tudo neste mundo tem uma data de validade. Contas, trabalhos, amizades, amores e até mesmo você. E, quando seu prazo expirar, sua vida passará diante dos seus olhos. Seus erros, acertos, decisões, vacilos, balanços, tudo será exposto na eternidade de um segundo, como você sempre ouviu dizer que era, mas preferiu não acreditar por achar muito clichê. Quando isso acontecer, já não importará tudo que você fez na vida. Se foi um médico ou um monstro. Se foi branco ou negro. Se sua carteira vivia cheia ou se você vivia no vermelho. Todas as pessoas nesse breve longo instante se resumem a ínfimas criaturas vivendo em um universo em constante expansão. Petrificadas diante do desconhecido. Indefesas diante do juízo de suas próprias consciências. Atônitas com a ausência de resposta para uma pergunta desconcertante: “Você realmente viveu?” Aos que viveram, a eternidade. Estarão presos na memória de quem ainda está vivo, renascidos na simples menção de seu nome, presentes para sempre. Aos que não viveram, restará a ilogicidade de morrer sem mesmo viver.

E desaparecerão no nada. ::

NO MEU IGLU OU NO SEU?

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Desde quarta-feira de uma semana que passou o amor começou a me perseguir. Fica me mandando sinais. Às 11 e 47, recordo ter visto no relógio, retirei o elástico que prendia o maço de revistas deixado pelo carteiro; no que ele se desespichou, virou um coração sobre a mesinha da sala! Pouco depois, andava pela rua e reparei na mancha de óleo sob a traseira de um automóvel.

Em formato de... coração. Seria paranóia, alucinação, obsessão sentimental? Fiquei matutando a razão de o amor vir atrás de mim, já que sou eu normalmente a persegui-lo. De noite, a cama gelada deu o toque: é inverno. E não há estação em que o amor reclame tanto sua ausência.

Não me venham com edredons de plumas de ganso: não existe cobertor nesse mundo que aqueça mais que outro alguém. O calor humano tudo supre. Mata a sede e a fome. Não se sente medo. Dorme-se placidamente o sono dos aquecidos. Entende-se por que para um mendigo bem-acompanhado mesmo um caixote de papelão pode ser leito perfeito.

DEGELO À VISTA
Até amor platônico é capaz de fornecer calor. Inventar amores impossíveis para ter gente aconchegada dentro do peito: quentinho amigo no estômago não é só chocolate quente que dá. Deitar ainda sozinho, é verdade, mas com a sensação de que o futuro, como a meteorologia, promete céu aberto, mínima de 25 graus e sem pancadas de chuva.

Dizem que a primavera é a estação do amor; discordo. Na primavera tudo são flores! Toda contemplação basta. Dias lindos de sol para percorrer por aí, sem necessidade de agasalho algum. Primavera é juventude, não é? Tempo bom para andar sozinho. Inverno é velhice – e quem, em sã consciência, pretende vivê-la a sós?

O outono é melancólico. Não penso no amor enquanto as folhas caem. O outono me desperta a memória das coisas que quero fazer antes que o inverno da vida chegue. Outono é época de planejar, e, claro, se vier amor junto, tanto melhor.

O amor faz parte de qualquer projeto.

A primavera e o outono são estações mornas, na delas; passariam despercebidas se não fossem tão belas. O verão e o inverno, ao contrário, são estações exageradas, imprevisíveis, indiscretas!

Tanta intensidade incomoda: ou vocês já viram alguém reclamar da primavera?

Amar no verão também é gostoso, o calor convida a atividades ardentes e com pouca roupa... Mas duvido de alguém que escolha o verão para se apaixonar. Aliás, apaixonar até pode – amar de verdade, será? Amor de verão não sobe a serra! Legal do verão não é ter um, mas vários amores. Entrar de peito aberto nesse mundo quente, cheio de novidades e vazio de compromissos. Tempo de comer pouco e frio, carpaccio, salada e sushi; no inverno, ao contrário, boca grande, apetite de comida forte – vocês sabem, de fácil digestão o amor não é.

Por ora, melhor esquecer o verão, o outono e a primavera. É inverno lá fora e aqui dentro faz frio. Minha pele achou de precisar de outra, de querer se encantar por outra, de desejar se encaixar num envoltório de carne, sangue e músculos e ficar por ali. E eu é que não vou contrariar a pele.

SER HOMEM-OBJETO É BOM?

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Túnel do tempo: estamos em 1949, na pré-estréia do filme Sansão e Dalila, dirigido por Cecil B. DeMille, com o bombado Victor Mature e a belíssima
Hedy Lamarr como protagonistas. Após a exibição, o comediante Groucho Marx dá sua opinião arrasadora: “Só tem um problema, C.B. Não consigo me interessar por nenhum filme em que os peitos do ator principal sejam maiores que os da atriz”.

Pobre Groucho, pobre Cecil e pobre de você, leitor: 58 anos se passaram e o que se vê nas telas hoje em dia? Os galãs em pé de igualdade com as estrelas como objeto de desejo da platéia. Vá ao cinema e verá tantos torsos masculinos quanto femininos. Abdomes tanquinhos competindo com barriguinhas curvilíneas. Traseiros musculosos disputando espaço com bumbuns redondinhos...

Vai dizer que não reparou? Então pense em todos os filmes do 007 que você já viu na vida. Inesquecível a imagem de Ursula Andress saindo da água de biquíni em O Satânico Dr. No, não é? Corta para o 007 mais recente, Casino Royale: a mesma cena de praia e, saindo da água, ninguém menos que Daniel Craig, o novo James Bond, saradão, gostosão, seminu – e peitudérrimo.

Quer você aceite ou não, a Bond Girl virou Bond Boy! O homem é hoje olhado com cobiça similar a de que foram alvo as mulheres desde o princípio dos tempos. Curioso é que muitos psicanalistas defendem que a mulher não possui desejo visual... Humpf. Vai dizer isso para as moças que babam diante de machos descamisados das novelas! Aliás, macho sem camisa em novelas? Pois é...

PEDAÇOS DE FILÉ

A apreciação de corpos masculinos desnudos, tão associada aos homossexuais na Grécia antiga ou em eras mais recentes, foi completamente absorvida pelas mulheres. Elas passaram a admirar o exterior do homem como nunca; a desejá-lo; a suspirar por ele. Melhor dizendo: a salivar por um corpo definido como se estivessem em cio permanente.

Numa festa, encorajadas pelo álcool, tem umas que chegam a passar a mão nos caras no maior descaramento! E não se espante se no futuro vir mulheres de capacete, encarapitadas no andaime de alguma obra, enrubescendo os homens que passam com comentários do tipo: “Cair do céu machucou, meu anjo?” ou “Nossa, o que esse bombonzinho está fazendo fora da caixa???” E ainda: “Êêêê lá em casa!!!”

O que me intriga nisso tudo é descobrir se essa inversão de papéis desagrada ao homem da mesma maneira que desagrada às mulheres. Virar objeto sexual, um naco de carne que todo mundo quer morder... Nenhuma mulher gosta de se sentir assim – bom, não vou generalizar, mas não é exatamente confortável constatar que o que você fala ou pensa importa bem menos que seu corpinho. Eu, por enquanto, não ligo quando dizem que tenho um bundão... ruim seria se me chamassem só de bundão. Ou não?

Será que os homens curtem se ver nessa posição? Ou chegará um tempo em que começarão a dizer também: “Elas não ligam para os meus sentimentos, só querem me comer!” Começará o homem a fazer forfait com as garotas, a exigir: “Quero que me reconheçam pelo que eu penso, não quero ser apenas mais um rostinho bonito!” Hein?

Respostas: Juro que irei prestar atenção direitinho no que você escrever, pitéu.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

E a vida se fez de louca...

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PEQUENO ROTEIRO PARA UMA HISTÓRIA NORMAL

Ela. Eu. Medo e intensidade. Uma vida inteira pela frente, um dia inteiro. Uma música ao fundo. Figurantes correndo na chuva. Um cachorro, uma válvula. Final sem fim. Trilogia de centenas de dias multiplicados ao extremo do elevado à décima potência. Negona, essas são minhas contas do tempo que te quero comigo.

E A VIDA SE FEZ DE LOUCA

Um homem apaixonado é pior que cachorro na chuva. E como disse minha prima: deus nos dê fígado, pois temos um mundo inteiro pela frente. Uma noite, uma noite apenas e lá estava ela em meio à fumaça. O cheiro da erva empestiava o ar, mas a gente nem ligava. Na verdade não ligávamos pra nada, nem pra nós mesmos. Ela me olhava, mas não me via. Eu idem. Fui embora três vezes pra perceber que tinha que ficar. Foi preciso um puxão no braço: “Fica aí negão. Vai pra onde nessa noite chuvosa?”. Pronto. Aninhei-me como gato. Quatro quartos de conversa e a proposta: vamos ver a chuva?

Com certeza quando tudo vai mal, quando o céu ameaça trovão pode ter certeza: vai piorar. Por sorte (ou destino?) eu não sofri com a lei de Murphy. Ela apareceu do nada e realmente mexeu demais comigo. Sorrisos gratuitos e uma necessidade intrínseca e urgente de permanecer o máximo de tempo possível do lado, perto, dentro. O diálogo mudo dos olhares. Conheci meus olhos verdes num Diretório Central dos Estudantes. Mas, como ela mesma diz já nos conhecíamos antes. Vivíamos cada um na fantasia do outro esperando só pelo momento da materialização. Freud era mesmo muito doido.

Estou num estado absoluto de embriaguez sorridente. Acordo: sorriso. Vejo Zé trabalhar: estou sorrindo. “Viu passarinho verde, seu Marcus?” Vi Zé, vi. E ele canta pra mim no celular. Ela diz que me ama da maneira mais original, diferenciando termos. Eu não digo nada. Estou como a vida... Conservador. Em paz. Não aquela paz bucólica de antes. Uma paz que fica suada depois. Sorriso bobo. Eu gosto de ler estórias pra ela. Como é lindo seu sorriso. Veio pra misturar tudo, pra trair a solidão. Pergunta-me se sentir saudade é bom ou ruim. Reclama do meu cheiro bom dizendo que faz querer não ir embora. Faz-me rir. Rimos juntos. Segredo da felicidade: rir com quem se ama. E vamos sim à praia, quem sabe dormir por lá.

PALAVRA É ERRO

Desoxirribonucléico. Somos mais do que espirais. Também esperava por você negona e quero mesmo que conheça a minha mãe. É impressionante como as coisas mudam tão rapidamente. Começo a suspeitar que a linha que separa a felicidade do seu oposto é muito tênue. Uma pessoa, um lugar, uma vontade. Vontade de estar feliz. Eu estou com vontade de você agora negona. Digo que te adoro e acho que sei a resposta praquela tua pergunta: o amor é mais forte porque contém o “te adoro” nele. Logo...

Sei que você sabe que quando eu não falo nada é porque não precisa. Aquele depois com o mamão e as uvas é perfeito. Olhar. Adoro olhar você. Quando se está apaixonado o diálogo tomo proporções metafísicas. Um olha, o outro olha e pronto. Sobe na moto e sai. Eu queria alguém que me cativasse. Ela me regou. Altas horas da noite e ela diz: “Negão, quando chegar em casa me dá um toque ‘preu’ saber que tu chegou bem”. E ainda me pergunta por que a olho com cara de bobo.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

PODERIA SER COMO VOCÊ

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Os desmandamentos que cercam o macho moderno

1 Chego em casa e minha mãe:
– Ligou uma moça pra você.
– Quem era?
– Ruth. Ou coisa assim.
– Ruth?! Não conheço nenhuma Ruth.
– Disse que estudou com você.
– Ah, então não seria Dina?
– Isso!

2 Um dia desses perguntou se eu não estava notando nada de diferente nela. Mencionei o cabelo, sem titubear. Ela abriu o maior sorriso, toda orgulhosa da minha prova de atenção. Daí eu, crente que tinha me dado bem, dou-lhe um abraço e falo: “Sempre achei que você ficava melhor de cabelo curto, amor”. Pra que fui dizer isso? Ela não tinha cortado o cabelo; tinha pintado. Só por causa disso, ficou uma semana de mal. Chorou e tudo. Mas já viu mulher precisar de motivo pra chorar?

3 – É a segunda vez em três minutos que você olha a hora.
– Eu tava marcando quanto tempo você passava sem reclamar de alguma coisa.

4 Desisto. Mulher não presta. Vou à China em busca das tais mulheres boas. Depois, viro gay pra ver se dou (ênfase no dou) mais sorte.

5 – Temos incompatibilidade de gênios. Nunca daria certo. Melhor abandonar o barco enquanto ele ainda está perto da praia – lamentou. – Precisamos arranjar uma namorada pra você – sentenciou o solidário. – Olhe ao seu redor e veja quem lhe interessa. Com minhas orientações, você não vai ficar na mão. Está vendo aquela ruiva? A hora é agora. Vá lá e comente algo sobre o preto de suas vestes contrastando com a brancura da sua pele.

6 Marcus Mota?! Nunca ouvi você me chamando de Marcus Mota. As pessoas costumam chamar as outras pelo nome completo quando estão chateadas. Você já notou isso? Que as pessoas chamam as outras pelo nome completo quando estão chateadas? É exatamente o contrário de quando elas querem agradar a outra pessoa ou se desculpar por alguma coisa errada, aí elas usam apelidos carinhosos. Né, Ju?

7 A moça vestia um jeans justíssimo de cintura mais-que-baixa. Mas a maior atração era o top. Top de linha. Tratava-se de uma blusa que, como diz a música de Gonzagão, começa muito tarde e termina muito cedo.
Era esse pedacinho de pano que deveria cobrir aquele farto par de seios. Deveria.
– Com todo o respeito, moça, mas seu peito tá pra fora.
– Ops! Obrigada.
– É muito bonito, carnudo...
– Brigada. São naturais.
– Não, eu estou falando do mamilo. Peito tanto faz se é pequeno, grande, caído, siliconado. Meu negócio são os mamilos.
– Eu, hein! Você é um tarado muito esquisito.

8 Finalmente resolveu atropelar o orgulho. E ligou.
– Você sumiu. Parece se importar com tudo, dar atenção a todos. Mas pra mim não liga, não escreve...
– ... Reticências. Só ouvia reticências. Até que:
– Você não acha que eu estava ocupada demais pra falar com você, não?

9 No chat:
– Tudo bem?
– :P
– Como foi a festa?
– \,,/
– Soube q você não ficou com ninguém.
– :~
Tradução:
– Tudo bem?
– Beleza.
– Como foi a festa?
– Bombou.
– Soube que você não ficou com ninguém.
– Snif.

10 Na happy hour, com o colega do escritório:
– Mas foi só beijinho ou...
– Barba, cabelo e bigode.
– E aí, como ela é?
– O que você pensa que eu sou? Não se sai espalhando por aí a intimidade de um casal.
– Tá bom. Não tá mais aqui quem perguntou.
– Paga um boquete inacreditável. Só vendo.

UMA TENTATIVA DE CONQUISTA MOVIDA A CHEIRO DE MACONHA

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Assim que ela entrou no meu campo de visão, meu coração deixou de
ser um latifúndio improdutivo. Ela não fez nada para que isso acontecesse, não pediu. Para ser sincero, nem eu mesmo queria que aquilo tivesse rolado. Bem, pelo menos não daquela maneira tão repentina. Eu estava sujo, com o cabelo pior do que de costume, barba por fazer, sentindo-me mal com aquela roupa, com sono, cheirando a maconha que uns colegas tragavam do lado de fora. Deprimente. E ela... ah... ela fingia que dormia bonitinha num colchonete fininho.

Sempre curti meninas estranhas. Ela não é lá tão estranha. É esquisita. Fofa. Há pessoas muito mais estranhas por aí. Mesmo assim, qualquer um que me conheça é capaz de olhar para ela e afirmar que eu me encantaria por uma guria do jeitinho daquela ali. Não é para menos: ela falava de um jeito estranho, seus olhos comprovam que ela deve estar permanentemente num estado de letargia.
Deu-me um surto de loucura e macheza (geralmente eles andam lado a lado) e eu decidi que trocaria nem que fossem duas palavras com ela. Oi. Tchau. Tentei. Eu não sabia nem como começar. Só sabia que tinha de fazê-lo. Estava na hora de arriscar. Destino? Acaso? Não me lembro de ter falado coisa mais idiota para uma menina. "Eu vou embora..." Não fiquei com vergonha. Ela sorriu. "Senta aí negão...". Conversamos.

CONTANDO MENTALMENTE
Ela tem o mesmo nome da falecida. Gravei na hora. Engraçado,
lembro-me de tudo o que conversamos. E isso não acontece comigo. Geralmente, escuto as meninas falarem qualquer coisa sem me preocupar em lembrar depois, só para tentar surpreendê-las na hora com alguma frase de efeito, pegá-las de supetão, manjas? Com aquela ali, era diferente. Lembro-me bem um dia desses quando ela me disse que tinha 22 pra 23 anos. Tive medo, mas comecei a calcular mentalmente, enquanto ela falava (admito: não lembro o que ela falou enquanto eu calculava), a diferença de idade entre nós. Tive medo. De 23 para 21. Dois. É nada. Alguns meses a mais outros menos. Não, não.

Continuamos a conversar. Eu começava a frase ela terminava. Um cariho absurdo que não tinha vontades sacanas e a chuva caindo solta do lado de fora. O papel dela em minha vida já estava escrito, o filme já havia sido rodado. Sucesso de bilheteria.
Sem que ela ou eu pudéssemos prever, aquela menina fez com que eu voltasse para minha casa e pensasse que o poeta estava mesmo certo: “O passado a gente esquece e há sempre alguém novo para amar”.

Aqueles olhinhos verdes me desenterraram de um buraco do qual tinha certeza que não sairia tão cedo. Guardo todos os traços dela em minha mente. Penso naquela coisinha bem no meio do trabalho, sem razão aparente. Eita Juliana, que bem você me faz...

domingo, 8 de julho de 2007

ODORES E HUMORES

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O AMOR NÃO TEM SENTIDO, MAS QUEM HÁ DE DESPREZAR OS SENTIDOS?

Nunca consegui entender direito por que um amor acaba. Para Nelson
Rodrigues (o maior frasista brasileiro de todos os tempos), “se acabou é porque não era amor”. De todas as conjecturas, suposições e explicações que ouvi sobre o assunto, talvez a de Nelson seja realmente a mais sensata. E a mais radical, como tudo, aliás, que levava a sua assinatura. Mas, mesmo levando em conta a veracidade da frase rodriguiana, comecei a me perguntar de tempos para cá: quais são os indícios de que um amor acabou (mesmo não sendo amor, já que acabou)?
Semana passada, fui passear com minha superlinda amiga Natali no Parque da Cidade que dispõe de um projeto mal sucedido de zoológico. Era uma manhã azulada, realmente bonita, com uma luz propícia para a observação das cores que revestem os animais. Poucas cores é verdade. Mais osso, menos carne. Enfim... De repente, sem que nenhum aroma desagradável tivesse nos atingido (estávamos a milhas da jaula do leão), Natali virou-se para mim com a seguinte frase: “Olha, Marquinhos, terminei com o meu último namorado por causa do cheiro. Pode parecer completamente imbecil, o cara até que era legal, inteligente, bonito, mas, toda vez que eu ia me encontrar com ele, lembrava-me do seu cheiro e quase desistia de ir. Da última vez, não fui. Liguei e simplesmente disse que não queria mais namorar com ele”.
Ele ainda ficou alguns dias à procura de Natali para saber o porquê da súbita separação. Mas ela, com vergonha de lhe falar a verdade, disse-lhe simplesmente que precisava ficar sozinha por um tempo.
Comigo também aconteceu algo semelhante tempos atrás. E o curioso dessa história é que, à medida que fomos nos desentendendo por motivos que não cabem aqui explicar, e a nossa convivência foi ficando cada vez mais difícil e inviável, seu cheiro foi, proporcionalmente, ficando mais e mais insuportável para o meu olfato.
SEMPRE RIR
Outro indício de que um amor terminou é quando o senso de humor começa a ficar escasso. O poeta modernista Oswald de Andrade escreveu o mais curto e mais contundente poema em língua portuguesa sobre o assunto. O título é Amor. E o poema em si: Humor. Nada mais. Quando um casal perde de vista a grande diversão que é o amor e começa a levar a coisa a sério, os leitores podem ter certeza: o resultado será estresse com separação imediata. Não estou querendo dizer que devemos nos comportar como hienas ou bobos alegres que riem de tudo e de todos. O senso de humor é uma arma sutil que, quando usado com inteligência e criatividade, pode, além de prolongar, deixar o relacionamento mais leve, e, é claro, divertido.
A mulher que mais amei em toda a minha vida foi a mulher com quem eu mais me diverti. Ela tinha um apuradíssimo senso de humor, algo nato. Rir com a pessoa amada é uma das melhores coisas do mundo. E o seu odor, ah, tanto o perfume que usava quanto o que exalava de seus poros mais secretos entorpeciam meus sentidos e me deixavam completamente louco. Eu disse no começo deste parágrafo “a mulher que mais amei”. Mas eis um amor que parece que ainda não acabou. Talvez porque era amor. Amor mesmo.