...se pensarmos que a vida do autor depende de inúmeros processos involuntários que se interligam em cadeias infinitas, podemos ousadamente dizer, ao ver o livro nas mãos dos leitores, que todo o universo conspirou para que ele existisse...

sábado, 30 de junho de 2007

poema + ou - de amor

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eu queria senhorita
ser o seu armário e
guardar os seus tesouros
como um corsário.
Que coisa louca: ser seu guarda-roupa!
Alguma coisa sólida,
circunspeta e pesada
nessa sua vida tão estabanada.
Um amigo de lei (de que maneira eu não sei)
Um sentinela do seu leito
- com todo o respeito.
Ah, ter gavetinhas
para as suas argolinhas.
e sentir o seu cheiro, senhorita,
o dia inteiro...
Meus nichos como bichos
engoliram suas meias-calças,
seus sutiãns sem alças
E tirariam nacos dos seus casacos.
Ah, ter no colo - como gatos -
os seus sapatos
e no meu chão, como trufas,
as suas pantufas...

Suas blusas, seus jeans,
seus longos e afins.
Seus trastes e contrastes [...]
Aquele vestido da formatura
e aquele que já perdeu a pintura
Uma calcinha antiga,
uma boneca amiga
Bonecas de pano,
um brinco cigano.
Um chapéu de aba larga,
um isqueiro sem carga.

Pulseiras coloridas
Bandas de meninas
Ah,vê-la se vendo
no meu espelho, correndo.
Puxando sem dores
todos os meus puxadores
Mexendo com o meu interior -
à procura de um pregador.
Desarrumando-me por dentro
instigando o seu fomento
por coisas novas
Ser o seu segredo, senhora,
e o seu medo.
E sufocar, com agravantes,
todos os seus amantes.

cavalo

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Eu não sei por que te amo.
Lembro que me perguntaste naquele momento.
Pensei, pensei e muito pouco a contento eu titubeei e nada respondi. Pra falar a verdade, não sei nem porque chamam de amor...
Eu posso chamá-lo do que quiser.
Pensando bem, é melhor não pensar. Dá muita dor de cabeça e aí vem aquela tristeza por que a razão do meu sorriso está agora em Estância, bem perto de Laranjeiras que não dá tanta laranja assim por que é em Boquim que ocorre a festa da laranja, mas pelo que me lembro será que fica realmente perto ou longe? Minha nossa, posso ter cometido alguma espécie de aborto geográfico... É, eu tava falando de Laranjeiras que fica perto de Estância... ih. Eu tinha usado aquela cidade só pra rimar por que pensei que estava escrevendo uma poesia só que aí percebi que na verdade não era, mas ainda penso que é por que... Por que... Isso é uma poesia?
Acho que não. As poesias que eu li tinham palavras difíceis. É. E elas ficavam arrumadinhas na esquerda e rimavam... Mas, pra ser poesia, tem de rimar? E se eu quiser denominar esse punhado de palavras pertinho umas das outras de poesia? Eu posso! Há, há, há. Vou chamá-lo de cavalo. Pronto, estou escrevendo um cavalo enquanto penso no meu amor. Mas o que é mesmo o amor? Está dando dor de cabeça. É por que o meu amor está longe e por isso estou fazendo este cavalo para libertar meus pensamentos e levá-los até ela. Só que talvez fosse melhor eles ficarem lá dentro.

sábado, 23 de junho de 2007

equilíbrio

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EU DEVIA TER ACORDADO MAIS TARDE

Equibrado como um guindaste. Equilíbrio emocional. Acho que ouvi isso em algum lugar, talvez numa dessas revistas de consultório médico de trinta anos atrás. Porque escuto essa música chata que não tem nada a ver? Mudei a estação. Equilíbrío é declarar trégua aos seus intintos. É sentir saudade sem doer. Ontem eu vi numa rua um bando de gente gritando. Leio nos seus olhos uma espécie de ritual. Algo que eles fazem e juram acreditar que não é bobagem. Que forró é perda de tempo, que poesia não é coisa séria. Os bolcheviques são tão chatos. Termômetro serve pra quê mesmo? Lembrei que a escola é o lugar onde a gente aprende palavrão.

E NADA DE ZÉ CHEGAR

Passa-se o tempo, o tempo todo o mundo todo o dia inteiro. Dorme-se tarde, acorda-se cedo com aquela dúvida pertinente: o que cabrunco vou fazer naquela escola? Lembrei: estou em estado permanente de grevre por tempo indeterminado. Eu queria tirar greve dos outros, menos de Sayô. S. Me ouve, pensa que me entende e ficamos nos olhando. Sayô foi embora. Junto com a minha capacidade de sonhar a dois. Uma loucurazinha iria cair bem, mas sempre tem um monte de “mas”, “porém”, meus pais e et cetera.

Ah, se eu fosse metade do que esperam que eu seja. “Mas Marquinhos, você é tão inteligente. Olha como desenha bem”. Se isso desse dinheiro... Acabei de falar com ela. Telefone é insensível, num dá pra sentir o cheiro. E onde peste se enfiou o pedreiro que vai levantar o muro da frente? Sem ajudante, sobrou pra mim. “Mas Marcus, tu num sabe nem cavar um buraco?”. Minha mãe pensa que todo homem geneticamente tem um manual de como realizar tarefas na cabeça. Eu só queria ver Saiô.

NEM SÓ DE LUZ VIVE O HOMEM

Quando eu sou palhaço que nome eu teria? Começou a chover. Agora é que o Zé num vem mesmo. Como é que um pedreiro mora no bairro ao lado e demora mais de três horas? Tá carregando o burro nas costas. Só pode. Essa chuva, esse silêncio. Me lembra prova de estatística na quinta-feira. Na tv existem recomendações do que fazer em dia de chuva. Eita, pôr uma toalha em cima do computador e da televisão pra não molhar. Rita tá lá fora se divertindo com outros cachorros. Como tenho inveja dela. Ela corre com a língua pra fora absorvendo os pingos de chuva pelada. Ninguém repara e quando o fazem atiram pedras. Nem só de luz vive o homem, vive dos cachorros e sua incrível capacidade de serem felizes sem terem nada.

Estava conversando com um colega de ocasião quando ele disse que na próxima encarnação queria nascer gato. Vacinei logo dizendo que, segundo os espíritas, o gato é um ser que ainda não evoluiu. Dormir, cagar, ser lindo não importa a espécie, trepar quando dá aquela vontade sem problemas e ainda por cima (mesmo sem querer) receber afago de tortos e direitos. Evolução. Gatos se lambem, humanos também. É um começo. Tá chovendo. Será que eu vou ficar nervoso quando vê-la?

domingo, 17 de junho de 2007

receita pra se viver bem

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...honre seus compromissos;
nunca assine uma nota promissória
sem antes rasgá-la;
tome cuidado, sobretudo com seus
próprios cuidados:
seja discreto;
exiba apenas os pêlos que convém;
não brinque com fogo;
todo preservativo é no fundo, no fundo
um isolante térmico;
nunca chute um cachorro sem antes
saber seu nome;
liberte-se desse seu vívio de
não ser viciado em nada;
mas não use drogas como cocaína,
televisão ou chocolate;
ah, e evite fumar na presença de crianças...

...elas sempre pedem um trago!

segunda-feira, 11 de junho de 2007

amor...

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A história é simples: típica conversa de bar. Antônio, camisa listrada de mangas compridas, 32 anos, pediu uma cerveja. Era inverno. Luana, nome escolhido pela mãe devido ao nascimento em Lua cheia, óculos escuros mesmo que fosse de noite, sentou ao seu lado e pediu uma soda. Naquele bar de Aracaju, a música era tocada pelo próprio Antônio Nóbrega, antes de ser mundialmente conhecido em Recife. Mas quem iniciou o papo foi outro Antônio.
Antônio: Tudo bem?
Luana: Oi. Eu já te vi antes por aqui... Lembro que achei bem interessante seu
jeito.
Antônio: É? E chegamos a nos falar? Bem, é que faz muito tempo que não venho
aqui, meses, aí não lembro... És de onde?
Luana: Moro no siqueira. Entre a zona norte e a zona sul. Como que no meio do
Novo Mundo.
Antônio: Eu moro na 13 de Julho, mas fico a maior parte do tempo no Jardins, num
que tenho ali. Chamo o local de Mansão Machado de Assis, 137. O escritor, sabe?
Luana: Era um mulato, meio gago?
Antônio: Esse.
Luana: Machado era como eu. Você não entenderia minha vida... Têm umas coisas
no meio aí que você não sabe...
Antônio: Não sei? Pois me conte tudo!
Luana: Ora, pense bem e descobrirá!
Antônio: Mas não fiz nenhuma pergunta. Como descobrir o que não se procura?
Não concordas?
Luana: Não! Somos muito diferentes.
Antônio: E isso lá faz alguma diferença? Nem mesmo nos conhecemos. Ou melhor:
assim o creio, porque não me recordo de Luana descendo para o asfalto.
Luana: Antônio, como sabes meu nome?
Antônio: Da mesma forma que és ciente de como me chamam. Você mesma disse
que já nos vimos... É aquele ditado: “Quem só vê cara, às vezes, fica na solidão”.
Luana: A solidão é para os loucos. Ou para os que nada sabem da experiência.
Antônio: Para ser franco, desconheço muito e nem sei da missa um terço. Nem
mesmo um treze avos. Mas acho que isso não é problema. Pelo contrário: é o que me
motiva em minhas discussões diárias. Seja com os amigos ou com minha cadela.
Assim, sinto-me, debalde, revigorado, em paz. Ainda que numa paz questionável,
como tudo o mais.
Luana: A sabedoria popular é a verdade mais próxima que temos. Veja você esse
nosso momento juntos. Carne defronte carne.
Antônio: Se somos um único mistério, eu te aceito como parte de mim
Luana: Isso me lembra uma história que ouvi no Bairro América. Sujeito desceu o asfalto e perguntou como subir,
porque esquecera o caminho de casa. Foi lá, perguntou para o policial e sabe do que mais?
Terminaram por tomar uma cerveja juntos.
Antônio: Isso mostra que as coisas não são apenas frutos da imaginação.
Em qualquer lugar, qualquer época. E digo isso porque já viajei os quatro cantos desse país.
Luana: Entendo. Vejamos os fatos antes de mais nada, diz-nos a filosofia da vida.
“Paciência, Iracema, paciência” cantavam nalgum samba antigo.
Antônio: A frase a qual ludibriei-me em dizê-la assim que você sentou ao meu lado foi:
“Vamos sair deste lugar abafado e conhecer a natureza do mundo”?
Luana: E eu diria não, como já o fiz para outros com melhor conversa.
Diria não porque tudo tem um fim, mesmo o amor. E assim, sem dizer nada, diria tudo.
Antônio: Se tenho o direito de encerrar essa conversa, adeus.
Quero deixar em teus olhos a mensagem que explica que tudo que eu queria de você,
não poderias me dar jamais! Pudera eu ter em minhas mãos o segredo dessa caixa de Pandora,
pois que a culpa primeira, e a primazia de tudo, do fogo, devemos aos atos loucos de Prometeu.
Boa noite, Luana. Leva meu amor contigo!

E nunca mais se viram. Ou se viram, mas sempre viravam o rosto
para não ter que enfrentar a crueza do mundo e a certeza de não saber absolutamente nada.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

PULANDO A CATRACA

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Estou numa idade de ler romances russos, Proust, Mais-Chato-de- Assis, sei lá. Estou com 221 anos. E ainda ontem minha mãe me disse: “Marcus, hora de amadurecer”. Minha loira, 23, entre um e outro beijo varonil sem querer no meu pescoço, sussurrou no meu ouvido: “Marquinhos, separô pra pensar no que a gente faria se não tivesse mais poesia?!”, e me convidou para almoçar numa quarta-feira chuvosa.
Entre aspargos e supostos agriões, ela puxou minha cabeça e segredou no meu ouvido dilacerado: “Amor, hoje é o primeiro dia do resto de sua vida”. E logo catou a minha língua e a colocou dentro de sua vagina enquanto cantava “primavera nos dentes...”. Adoro sonhar com ela.
Minha vida em fascículos, invenção, quer me dizer: “Marcus, você quis & nem quis se cuidar”. Sou maluco e não sou mal-humorado. Ontem mesmo acordei com um pássaro que me dizia em sua língua: “Marcus, depois de um recorde vem outro”. Lá fora o dia amanhecia, como sempre, como sempre.
Ontem mesmo, aliás, alguém me perguntou: “Mas você não tem compromissos?”. Foi então, e só então, que pensei em ficar aqui enquanto a turma de vaqueiros tira o leite. Cuidado, isto é um texto de auto-ajuda dos anos 60, 70, 80, 90, 00. Nem sempre o cronista entende o leitor: eu adoro a minha loira e sua fissura de escutar O Teatro Mágico toda vez que tem a chance de colocar os fones no ouvido. Eu sei que devia estar em casa com meu samba-canção (criação extensiva) lendo Proust. Mas não sei o que me acontece. Meu saco. Sei lá.
ALÉM DO TEMPO
A maturidade com toda sua serenidade e comedimento não me quis. Não quis me kiss. Fui expulso da maturidade, virei um melão rock and roll dançando no pomar psicodélico forever. Patético como um dos três patetas. Qual? O senhor escolhe. Sem compromissos, esquecendo a identidade na hora de descontar os cheques. Porque eu não agüento mais o servilismo e tenho talento de sobra para pular a catraca. E mais: vou chamar a loira. Para pular a catraca comigo.“Loira, vamos pular esta porra da catraca?” Pular a catraca a dois é bem mais excitante. Porque só ela, afora o oxigênio e a luz, neste momento, me seduz.
Moro numa casa no final do mundo à esquerda com vista para o infinito. Estou muito híper a fim de uma nova moradia. Algo mais perto do mundo, mais perto do que eu era antes. Com a minha mãe e sem a minha mãe. Mas não penso em nada. Nada. Penso em nada. Lá fora um ônibus azul está me chamando. “Hei, Marquinhos, venha com a gente, tente ser feliz aqui.” Penso no mar, aquele bálsamo.
Esqueço de mim e vou.
Lembro daquela senhora marxista de 27 anos que me disse: Sinceramente, Marrrrcus, eu ouvia Mutantes quando tinha 18 anos de idade...”. Ela queria me desestabilizar em seu humor politicamente sei lá. Acho que sei lá. Que estou com 221. 12, 446. Essa gente que não sabe transgredir acaba sendo um saco, um verdadeiro saco. Poesia é mais. É além do tempo. Brilhante como o Sol. Me sinto bem. Em qualquer lugar. Tudo foi feito pelo Sol.
Que tal um chachachá pra gente se achar?
Concluo que o triunfo é não matar formigas!
E botar meu bloco na rua.
O resto é repetição robótica.