...se pensarmos que a vida do autor depende de inúmeros processos involuntários que se interligam em cadeias infinitas, podemos ousadamente dizer, ao ver o livro nas mãos dos leitores, que todo o universo conspirou para que ele existisse...

domingo, 27 de maio de 2007

DE FORMIGAS E GALÁXIAS

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Está tudo certo conosco. O pensamento que pensa em você. A liberdade livre. Parece filme. Hoje eu vi um casal partindo rumo à escuridão: parece que comiam salada de frutas em qualquer lugar. O que me encanta em você é o seu segredo. Nele reside a minha vida agora. Só choro às vezes, comendo sucrilhos. “Meu Deus, como isto é bom!” Nada de novo no mundo a não ser nós. Hoje você veio aqui e me disse literalmente: “O cérebro em seu leito flui macio e verdadeiro. Mas deixe um desvio acontecer: seria mais fácil para você devolver a correnteza aos seus caminhos quando as correntes cortarem as colinas”.
Odeio estar sozinho, mas não suporto interrupções. Abro minha janela e vejo, sabe-se lá o quê. Um esquilo, nunca vi. Com binóculos, menos ainda, nem formigas. “Não é possível que no fim o milagre não aconteça.” Como eu pensava em você, enquanto você não vinha. Ninguém sabe de onde vem o vento. E tampouco as sobrancelhas. Dito isso, vamos nos perder. Muito mais razoável, portanto, é abrir espaço para o acaso, o fortuito. Afinal, a vida é gratuita, fortuita. Assim quis Deus. Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos. E nos procuramos em vão.
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou. Quando penso em alguém, só penso em você. Nunca tive paciência com os escritores que reclamam do leitor um esforço para compreender o que eles querem dizer. As mais sutis reflexões podem ser expressadas com clareza. A descendência do caos, do mar e do céu. Ela me explicou, eu não ouvi. Estou inventando uma nova visão do amor.
A verdade é que não me lembro mais com o que não me conformo. Fã do oxigênio, arauto da luz, protetor das formigas. A vida é uma seqüência de tragédias com pores-do-sol. E o rio Amazonas com sua perturbadora biodiversidade.
MILAGRE FINAL

Não sei o que será da avenida Gentil Tavares quando Cronos agarrado em Zeus cuspir sua última pedra. De Ipanema quando Iemanjá e suas nove musas conferirem o divino poder das canções. O próprio comportamento sexual deverá tornar-se pingüim. E assim por diante.
Guardem isto: “Mudar as mentalidades e a vida dos homens”. Os seres humanos são apenas uma parte do tecido da vida – dependentes do tecido completo para sua própria existência. Não podemos ignorar as formigas. Elas são galáxias em si. E por aí vão. Cada animal é um fim em si mesmo – sai perfeito do ventre da natureza e gera filhotes. Eu falo em nome do verde da folha.
A meta é ar puro circulando, rios correndo limpos e desimpedidos, a presença de pelicanos, águias e baleias em nossas vidas. Salmão e trutas em nossas correntes. Linguagem cristalina e sonhos bons. Outra operação.
Tipo tecido cósmico alinhavado. Não é possível que no fim um milagre não aconteça. Conosco vai tudo bem. Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio pau a bandeira da imaginação. “Mas Marquinhos...” Fim de papo. ::

construído com base em revista de alto teor erótico

quinta-feira, 24 de maio de 2007

os olhos mentem dia e noite a dor da gente

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o teatro. a magia. o espaço da configuração de sonhos. o teatro físico com suas paredes, seu palco, luz e som. as pessoas, juntas numa desculpa esfarrapada para se encontrarem e sorrirem, gritarem, se emocionarem e sentirem alguma coisa. sentirem algo pra si, entre si e com alguém. o teatro. a vida diante da vida representando a vida. alguém. o que nos falta nas vezes que um colo via bem a calhar.

"o dia mente a cor da noite
e o diamante, a cor dos olhos
os olhos mentem dia e noite
a dor da gente"

cheguei, mas ainda estou lá. deixei em algum lugar o meu querer. hoje eu não quero, não quero mais. nossa, como é estéril a certeza de quem vive sem amor.
mas, como está no bilhete que recebi de uma moça muito bonita durante o espetáculo: amanhecerei brilhando ainda mais forte.

domingo, 20 de maio de 2007

mais um projeto de num sei o quê

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Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser. A árvore impõe o verbo "ser", mas o rizoma tem como tecido a conjunção "e...e...e..." Há nesta conjunção força suficiente para sacucdir e desenraizar o verbo ser.
|Entre| as coisas não designa uma correlação localizável que vai de uma a outra, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma E outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Príncipe Felizberto Tucotruco do Reino de Plum

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Felizberto TucoTruco era um jovem príncipe que morava no Reino de Plum. Ouvia as histórias de seu velho pai com ardor. Adorava as que falavam de guerras e heróis sanguinários. Decidiu que queria lutar. Passou sua juventude se aperfeiçoando na arte de matar. Aprendeu a manejar espadas e já empunhava feliz um bacamarte.
Um dia, seu Reino declarou guerra a um país vizinho. Visivelmente empolgado, o jovem príncipe se colocou à disposição do exército imperial. Só que ele era tão feio, tão feio que todos tinham certeza de que o príncipe na verdade era um sapo.
Ele esperneou, berrou que sapos não eram tão grandes assim...

O Conselho do Palácio se reuniu e decidiram que uma bruxa havia feito um serviço pela metade e - sendo metade homem, metade sapo - Felizberto não podia guerrear.
O princípe ficou arrasado e numa noite saiu pelo reino a chorar, completamente amargurado.

No dia seguinte, ele havia sumido! Ninguém sabia onde ele estava. O tempo passou e dizem as más línguas que o feio príncipe mora ao lado de uma lagoa e - revoltado com a raça humana - esqueceu-se como se fala e passa seus dias a coaxar.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

aldeia - teatro mambembe

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Aldeias são acontecimentos estéticos da cotidianidade. Arte e cultura como vontade de vida. Pulsações políticas do desejo. Teatro é uma estratégia camaleônica, é uma atitude de convocação dos públicos para o abarco circulante em torno do fato em praça pública ou não. Uma estratégia para atrair os cidadãos para um local de encontro com os seus vizinhos. É teatro, no sentido de cena pública. É menos a representação e mais a ação comum. Comunitária. Comunidade é o lugar que só existe no desejo.

A pulsão comunitária, o estar-junto, a vida comum transbordando afetividades no dia-a-dia. As conversas de boteco, os banhos de bica e de cachoeira, as peladas, os passeios de bicicleta, as fofocas na esquina ou na frente de casa enquanto a vida passa, as fofocas das fofocas nas igrejas, o passatempo nos salões e barbearias, crenças populares, descrenças políticas, abraços e apertos de mãos, tagarelices confusas, danças, amores públicos e privados, folguedos dos sentimentos, sonhos. A sensibilidade coletiva construída na solidariedade das trocas triviais do cotidiano.

A difusão dos gestos e jeitos hospitaleiros. A contaminação pelo bem-querer-sem-dever. A aventura de se abrir para os outros. Os outros, os outros, dos outros-de-mim. A superação do egoísmo e do individualismo pelo sopro quente e acariciante da multidão.
O contrário da competição e do bairrismo. O local e o universal. O mínimo e o múltiplo. O zen e o zonzo. O vizinho e o estrangeiro. A multiplicidade dos corpos que passam, perpassam, por todas as diferenças inimagináveis. A tolerância, o medo e a curiosidade.

Uma aldeia é uma aldeia é uma aldeia. A vida errante dos ciganos. A comoção dos romeiros. O canto dos pássaros da imaginação. O artesanato do pensamento costurado em praça pública. Agora, agora mesmo, no instante-já. O sentimento de pertencer a outro mundo. Pertença ao contrário. Ao revés. Fazendo girar o que já é patrimônio de todos. O troca-troca, o toma-lá-dácá, sem valor, só na lei do uso. A aldeia é o homem comum. É de todos e de nenhum. É um rio alargando suas margens, contaminando casas, cabanas, calçadas, berços e varandas. Toda aldeia é um manicômio, é uma Atlântida ampliando limites fronteiriços do imaginário. São linhas que cruzam aldeias.

espero que um dia isso dê certo...

segunda-feira, 7 de maio de 2007

cafezinho turbinado

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cafezinho turbinado


3 colheres de sobremesa de pedaços
de chocolate amargo
2 pitadas de pimenta malagueta
200ml de leite
1 xícara de café expresso
canela em pó
(licor de chocolate)

método

cortar o chocolate em pedaços pequenos
colocar dentro de uma jarra, adicionar
pimenta em pó e leite.
servir a mistura em uma taça com café
depois põe canela por cima.
põe também o licor.

carta a uma amiga

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Há três modos de abrirmos o coração e revelar um segredo que ele contenha: confiar, confessar e confidenciar. Confiamos um segredo a alguém, com certo tom de superioridade e como quem entrega uma jóia para ser guardada ou transmitida. Nessa comunicação secreta não entregamos nada de nós mesmos a não ser o fato em si, o objeto da prova de confiança que damos ao amigo ou ao mensageiro. Confiar é entregar alguma coisa a alguém e não se entregar a alguém.

Confessar é abrir todo o coração. É confiar não só o segredo, mas ainda tudo o que o acompanha. É ir ao fundo da alma e entregar a outrem, com um sentimento patente de inferioridade e humilhação, tudo o que nela vive e palpita, sem reserva alguma. A confissão é a libertação de um peso, é o alívio de um remorso, é a entrega quase egoística de um mal que nos oprime, de um segredo hostil que nos queima as entranhas.

A confidência não é a mesma coisa. Não tem a seriedade do ato de confiar, que desce, nem a angústia de confessar, que sobe. A confidência se passa no mesmo nível, entre almas afins, entre corações que se sentem irmãos. É uma entrega completa – não de um segredo que se precise confiar a alguém, por este ou aquele motivo, ou confessar porque nos faz mal a sua guarda, - e sim de uma intimidade que se comunica sem necessidade, sem motivo algum, a não ser o próprio prazer de transmissão. Enquanto a confissão ou a confiança constituem atos unilaterais – é a confidência por natureza recíproca. Entregar-se, recebendo.

Engraçado dizer tudo isso. Penso aqui com meus botões em meio a estes enxertos de papel velho e emprestado. Sim, creio também que a mocidade é a idade filosófica por excelência. Não que o nosso espírito já esteja então suficientemente amadurecido para poder penetrar a fundo os grandes problemas do universo e muito menos para formular sistemas próprios ou reformular idéias eternas. Mas é nessa idade que os grandes problemas metafísicos nos interessam de modo mais angustioso. Fomos, na adolescência, muito mais sensíveis à poesia e à religião, ou então às artes que vivem da exteriorização e do movimento. A adolescência fora a idade do cinema. A mocidade é a idade da controvérsia.

Sou moço [...]. Digo isso com propriedade. Tenho 20 e poucos anos e estou em plena controvérsia de sentidos e comportamentos. Tem um certo tempo que a minha falta de responsabilidade me acompanha lado-a-lado. Sempre à espreita colocando o pé pra que eu possa tropeçar. Bobo, sempre coloco a culpa numa possível má sorte. Besteira. Tomei uma decisão hoje, mas creio que não fui de todo sincero. A necessidade de dizer certas palavras às vezes ou até mesmo de dizer alguma coisa me tira de situações embaraçosas, mas cria ocasiões de despautérios no futuro.

Em outro momento eu continuo. Tenho que dormir agora.

terça-feira, 1 de maio de 2007

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depois do tapa vem a dor
a dor nada mais é do que
a vontade de não sentir dor
mas que dor é essa que não necessita
do tapa pra doer?
basta a lembrança, geralmente boa.

segundo meu barômetro psicológico
estou neste dado momento com um
"espírito propenso à solidão com
profunda insatisfação de si mesmo".

Ventos de dentro apontam para um
caminho menos aterrador. Talvez
um espírito levemente irônico com
peças destinais, uma alegria quase
sarcástica - insuportável a mim mesmo
numa aspiração a sair do meu eu,
objetividade excessiva, fusão do meu
ser na natureza do lápis com o qual
desenho.

É fato: eu penso melhor á lápis.

desaforismos de uma nova consciência

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depois eu escrevo...